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Como é ser um pesquisador independente no Brasil?



Da última vez que olhei os números, mais de 70% da pesquisa brasileira é financiada pelo poder público e feita dentro das universidades. Eu diria que esse número é ainda maior. Não conheço nenhum caso de brasileiros fazendo pesquisa fora das universidades. O nome pesquisador independente dever ser alienígena para muitos.


Eu me considero um pesquisador independente, e não gosto de pensar nisso como algo temporário, esperando um concurso. Depois de dois pós-doutorados, que terminei com todos os documentos aprovados, decidi que o ambiente acadêmico brasileiro não é para mim. Foi uma decisão difícil uma vez que meu supervisor queria renovar a bolsa de pós-doutorado, mas estava cansado do ambiente tóxico, da falta de respeito. Da falta de consideração com minha inteligência, da arrogância do PI onde fazia o pós-doutorado. Da burocracia que criaram em torno da bolsa.


Desde a graduação eu busco independência, e sempre achei que ao subir de grau, essa independência ia aparecer. Mas não, parece-me o oposto. Um pós-doutorando tem menos liberdade para pesquisar do que um aluno de IC.


Uma vez estava falando com uma pessoa no X, que se dizia chefe de laboratório. Essa pessoa deixou bem claro que um jovem pesquisador tem que se submeter a um laboratório, e depois ter o seu próprio para ter autonomia. Achei triste essa forma de pensar, que me parece verdadeira. Professores brasileiros, não quero generalizar, parece-me se sentirem humilhados ao darem apoio a um jovem pesquisador, como se isso os tornassem menores ao oferecem apoio a um jovem pesquisador. Parece-me que construíram uma mentalidade onde o jovem pesquisador é uma peça de uma máquina feita para publicar artigos em revistas de impacto.


Pensei em fazer doutorado no Brasil, mas o que mais me deixou desaminado foi esse ambiente: parecia-me exatamente o que essa pessoa descrevia. Parece-me que pesquisadores brasileiros, e não estou generalizando, pelo menos os que conseguem recursos para ter um doutorando, pensei no jovem pesquisador como ferramenta para seu lab. Isso para mim tem uma consequência desastrosa: destroem um dos períodos mais importantes da vida do pesquisador, o doutorado. Eu sempre achei importante praticar a autonomia intelectual, fiz desde a graduação. Isso significa escrever seu próprio projeto, e ser responsável pelos erros. Quando estamos seguindo pesquisas já prontas, não treinamos esse lado. O doutorado é o único período da vida do pesquisador que ele vai ficar um tempo longo afundado em um mesmo tópico, que ele teoricamente vai ser o especialista. Pode ser uma pequena área, mas o doutorado seria a pessoa deixando seu selo. O doutorado seria o último treinamento de um pesquisador, onde ele é testado, sua resistência em errar, pegar caminhos errados, tudo isso é testado para a vida toda.


Fazer um doutorado deveria ser como:


Isso talvez ajude a explicar porque pesquisadores independentes sejam tão incomuns.


Outro ponto seria a forma como financiamos a pesquisa brasileira: focado nos programas de pós, que centralizam os recursos. Os programas de pós-graduação concentram basicamente os recursos das instituições como CAPES. As justificativas giram em torno de que se for diferente, haveriam muitas perdas. Como se não já ocorresse nas universidades, nos programas de pós.


Existem consequências para esse modelo de financiamento. Como exemplo, ao focarmos somente nas universidades quando vamos financiar a pesquisa brasileira, deixamos de financiar pesquisas inovadoras. Universidades são ambientes rígidos, são ambientes cheio de "cultura", de "vícios": como qualquer corporação. Startups existem exatamente para desafiar essas culturas, que limitam a inovação. O meu segundo pós-doutorado foi em uma startup. Contudo, ao meu ver, o grande erro foi financiar uma startup dentro de uma instituição, guiada por um pesquisador mais velho, ou seja, mesmo quando tentam financiar inovação, ainda assim amarram a iniciativa a um ambiente que é o oposto de inovação. Das startups que conhece, conhece alguma liderada por pessoas mais velhas? startups por definição é para jovens. Parece um medo de errar, que não pode existir quando queremos inovar. Inovação não rima com medo de correr risco. Ninguém faz concurso público para correr risco, a base da inovação. Concurso público é sinônimo de estabilidade, que é o oposto de inovação, de correr risco.


O maior desafio de ser um pesquisador independente é financiamento, talvez isso seja o que mais assusta as pessoas. Além de não ter uma rede de proteção, como pesquisas guiadas por pesquisadores mais experientes. Sempre gostei de correr riscos, de inovar, de sentir que estou fazendo algo diferente. Apesar dos desafios, sinto que esse caminho é o melhor para mim. Não é um caminho que promete riquezas, mas tenho a liberdade sonhada de pesquisar, de decidir os rumos do que vou pesquisar. Eu sempre tive de adaptar minha pesquisa ao financiamento, isso fez muitas vezes minha pesquisa seguir caminhos que achava improdutivos, somente para agradar os financiadores. Acredito que o financiamento deveria se adaptar à pesquisa, não o oposto. Essa falta de confiança nos pesquisadores como agentes que conseguem decidir o caminho das suas pesquisas é triste. Muito provavelmente, a argumentação mais usada é que iriamos perder muito dinheiro deixando os pesquisadores soltos, já perdemos. Não é necessário muito esforço para ver os desperdícios de recursos no sistema atual, mas que por motivos que não entendo, ignoramos, achamos normal.




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