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O sistema de revisão por pares e a cultura do especialista



O sistema de revisão por pares se baseia na ideia de que todo trabalho antes de ser aceito precisa e deve passar por especialistas. Existem alguns problemas com essa visão.


Um dos problemas com essa visão reside no fato de que trabalhos multidisciplinares não são escritos para especialistas. Uma das regras de um bom trabalho multidisciplinar, como bioinformática, é o fato de que a gama de pessoas que podem ler o trabalho é bem maior do que a gama de leitores de um trabalho mono-disciplinar. Achar um revisor para esses trabalhos se torna ainda mais complicado. As chances de uma pessoa entender o todo são bem baixa. No geral, esses trabalhos estão mais susceptíveis a críticas pesadas de especialistas, que muito provavelmente não conseguem entender a importância do trabalho.


Recentemente, ao enviar um trabalho para publicação, que foi aceito no final, um dos revisores chamou minha atenção porque estava explicando conceitos bem estabelecidos na área. O problema com essa afirmação é que muito provavelmente venho de alguém da área, um especialista. Essa visão é problemática porque exclui leitores foras da área, sendo o oposto da multidisciplinaridade.


Isabelle Stengers em "Another Science is Possible" destaca isso com grande vigor, como um problema real no sistema atual de avaliação de pesquisadores.



Nessa passagem ela estressa o fato de que um pesquisador pode desistir de publicar em uma revista que melhor seria para seu artigo porque não entra nas métricas de impacto. Para trabalhos multidisciplinares, isso geralmente é o caso. Grande parte das revistas de impacto são focadas, mono-disciplinares. Isso obriga o pesquisador a reduzir seu trabalho ao contexto da revista, muitas vezes, subvalorizando a beleza da multidisciplinaridade do trabalho em questão.


Como exemplo real. Estava conversando com uma pessoa online que produz 30 artigos por ano. Tentava explicar porque eu prefiro o sistema de revisão por pares aberta. O motivo que prefiro é exatamente devido ao fato de que o trabalho fica aberto para revisão. Não existe a figura do especialista como único na avaliação, mas sim do leitor do seu trabalho, que pode ser um especialista ou não, que faz a revisão por pares. Ela insistia que isso não é uma vantagem, mas sim um problema. Quem vai ler artigos no final são os leitores, não os chamados especialistas que são colocados como gatekeepers. Pensar que existe uma relação direta entre especialista e o leitor final do artigo não faz muito sentido para mim. A pessoa claramente estava presa na ideia de que somente o chamado especialista pode definir o que é um bom artigo, o que me parece um grande equívoco criado e reforçado pela cultura da revisão por pares como medida de qualidade de artigos científicos. Eu acredito que o leitor do artigo deveria fazer essa definição. Para um trabalho multidisciplinar, esse leitor pode ser bem variado. Para mim, o sistema tradicional não tem representatividade estatística. Essa falta de preocupação com o leitor final sempre foi para mim um dos efeitos para tristes do sistema atual de avaliação de pesquisadores.


Criamos uma cultura de métricas, onde se mede tudo no meio acadêmico. Essa cultura cria vários efeitos negativos, que são curiosamente ignorados em nome de conceitos abstratos, como "rigor da pesquisa". Esses conceitos são tão mal definidos quanto o conceito de inteligência artificial geral.



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