O paradoxo do novo sistema da CAPES para pagar APCs: o sistema penaliza quem reduz custos
- Jorge Guerra Pires
- 15 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
A CAPES apresentou recentemente seu novo modelo para lidar com um problema real da ciência contemporânea: o custo exorbitante das Taxas de Processamento de Artigos (APCs) cobradas por grandes editoras científicas. A justificativa oficial é sedutora — ampliar o acesso, reduzir barreiras e tornar pesquisadores brasileiros mais competitivos internacionalmente.
O problema é que, ao olhar com atenção, surge um paradoxo grave:
o novo sistema penaliza exatamente os pesquisadores que reduzem custos.
E isso não é uma consequência acidental. É um efeito direto do desenho da política.
O incentivo perverso: custar mais passa a ser vantagem
Em qualquer política pública minimamente racional, esperaríamos o seguinte princípio:
quem publica gastando menos recursos públicos deveria ser valorizado.
No sistema atual da CAPES, ocorre o oposto.
Publicar em um periódico caro, com APC elevada:
é incentivado;
tem custos cobertos pelo sistema;
gera prestígio institucional;
não penaliza o autor.
Publicar em um periódico sem APC:
não gera qualquer benefício adicional;
frequentemente tem menor peso na avaliação;
pode até ser interpretado como “publicação periférica”.
O sistema não proíbe journals sem APC.Ele faz algo mais eficaz: ignora completamente quem escolhe esse caminho.
Na prática, isso é punição.
O sinal institucional é claro (mesmo sem estar escrito)
O pesquisador aprende rápido qual é a mensagem implícita:
“Se posso publicar em um periódico caro e o Estado paga,por que escolher uma alternativa gratuita que não vale mais pontos?”
Essa lógica:
cria demanda artificial por journals caros;
enfraquece revistas eficientes e éticas;
empurra autores para oligopólios editoriais.
Ou seja:👉 o sistema cria o problema que diz combater.
O paradoxo econômico
A CAPES afirma querer:
reduzir o impacto financeiro das APCs;
tornar a publicação mais acessível.
Mas ao:
não premiar quem publica sem APC;
não diferenciar custo baixo de custo alto;
não criar qualquer incentivo à eficiência,
ela transforma o gasto elevado em vantagem competitiva.
Isso é o oposto de uma política de contenção de custos.
O efeito colateral sobre revistas sem APC
Revistas que:
não cobram APC,
operam com orçamento reduzido,
mantêm revisão por pares rigorosa,
ficam estruturalmente em desvantagem porque:
não recebem subsídio equivalente;
não oferecem “prestígio importado”;
perdem bons autores para journals pagos.
O resultado é perverso:
modelos sustentáveis são enfraquecidos;
modelos predatórios são fortalecidos;
o sistema editorial como um todo piora.
Um exemplo concreto (e incômodo)
Há pesquisadores que:
publicam após passar por revisão por pares rigorosa;
escolhem conscientemente journals que não cobram APC;
reduzem o custo para o sistema científico;
ampliam o acesso aberto de forma real.
Esses pesquisadores:
economizam dinheiro público;
fortalecem modelos éticos;
fazem exatamente o que a CAPES diz querer.
E o sistema responde como?👉 com zero reconhecimento institucional.
A inversão de valores
O critério implícito passa a ser:
❌ reduzir custos → irrelevante
❌ escolher alternativa aberta → irrelevante
❌ evitar pedágio editorial → irrelevante
O que conta é:
publicar onde custa caro;
publicar onde a CAPES paga.
Isso não é eficiência.É normalização do desperdício.
Como seria uma política coerente (e por que ela não existe)
Uma política minimamente coerente incluiria:
bônus explícito para journals sem APC;
prioridade para modelos públicos e nacionais;
desincentivo progressivo a APCs abusivas;
reconhecimento de eficiência econômica na avaliação.
Nada disso aparece.
E quando uma política pública não corrige incentivos, ela os reforça.
Conclusão: um sistema que pune virtude e recompensa custo
O novo modelo da CAPES cria um paradoxo difícil de justificar:
quanto mais caro você publica, mais o sistema te favorece;quanto mais eficiente você é, mais invisível se torna.
Isso não é falha técnica.É erro de desenho.
Enquanto a CAPES não alinhar avaliação científica com eficiência, abertura e sustentabilidade, continuará financiando exatamente aquilo que diz querer combater.
E, no processo, seguirá punindo quem faz a escolha correta.






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