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O paradoxo do novo sistema da CAPES para pagar APCs: o sistema penaliza quem reduz custos



A CAPES apresentou recentemente seu novo modelo para lidar com um problema real da ciência contemporânea: o custo exorbitante das Taxas de Processamento de Artigos (APCs) cobradas por grandes editoras científicas. A justificativa oficial é sedutora — ampliar o acesso, reduzir barreiras e tornar pesquisadores brasileiros mais competitivos internacionalmente.

O problema é que, ao olhar com atenção, surge um paradoxo grave:

o novo sistema penaliza exatamente os pesquisadores que reduzem custos.

E isso não é uma consequência acidental. É um efeito direto do desenho da política.

O incentivo perverso: custar mais passa a ser vantagem

Em qualquer política pública minimamente racional, esperaríamos o seguinte princípio:

quem publica gastando menos recursos públicos deveria ser valorizado.

No sistema atual da CAPES, ocorre o oposto.

  • Publicar em um periódico caro, com APC elevada:

    • é incentivado;

    • tem custos cobertos pelo sistema;

    • gera prestígio institucional;

    • não penaliza o autor.

  • Publicar em um periódico sem APC:

    • não gera qualquer benefício adicional;

    • frequentemente tem menor peso na avaliação;

    • pode até ser interpretado como “publicação periférica”.

O sistema não proíbe journals sem APC.Ele faz algo mais eficaz: ignora completamente quem escolhe esse caminho.

Na prática, isso é punição.

O sinal institucional é claro (mesmo sem estar escrito)

O pesquisador aprende rápido qual é a mensagem implícita:

“Se posso publicar em um periódico caro e o Estado paga,por que escolher uma alternativa gratuita que não vale mais pontos?”

Essa lógica:

  • cria demanda artificial por journals caros;

  • enfraquece revistas eficientes e éticas;

  • empurra autores para oligopólios editoriais.

Ou seja:👉 o sistema cria o problema que diz combater.

O paradoxo econômico

A CAPES afirma querer:

  • reduzir o impacto financeiro das APCs;

  • tornar a publicação mais acessível.

Mas ao:

  • não premiar quem publica sem APC;

  • não diferenciar custo baixo de custo alto;

  • não criar qualquer incentivo à eficiência,

ela transforma o gasto elevado em vantagem competitiva.

Isso é o oposto de uma política de contenção de custos.

O efeito colateral sobre revistas sem APC

Revistas que:

  • não cobram APC,

  • operam com orçamento reduzido,

  • mantêm revisão por pares rigorosa,

ficam estruturalmente em desvantagem porque:

  • não recebem subsídio equivalente;

  • não oferecem “prestígio importado”;

  • perdem bons autores para journals pagos.

O resultado é perverso:

  • modelos sustentáveis são enfraquecidos;

  • modelos predatórios são fortalecidos;

  • o sistema editorial como um todo piora.

Um exemplo concreto (e incômodo)

Há pesquisadores que:

  • publicam após passar por revisão por pares rigorosa;

  • escolhem conscientemente journals que não cobram APC;

  • reduzem o custo para o sistema científico;

  • ampliam o acesso aberto de forma real.

Esses pesquisadores:

  • economizam dinheiro público;

  • fortalecem modelos éticos;

  • fazem exatamente o que a CAPES diz querer.

E o sistema responde como?👉 com zero reconhecimento institucional.

A inversão de valores

O critério implícito passa a ser:

  • ❌ reduzir custos → irrelevante

  • ❌ escolher alternativa aberta → irrelevante

  • ❌ evitar pedágio editorial → irrelevante

O que conta é:

  • publicar onde custa caro;

  • publicar onde a CAPES paga.

Isso não é eficiência.É normalização do desperdício.

Como seria uma política coerente (e por que ela não existe)

Uma política minimamente coerente incluiria:

  • bônus explícito para journals sem APC;

  • prioridade para modelos públicos e nacionais;

  • desincentivo progressivo a APCs abusivas;

  • reconhecimento de eficiência econômica na avaliação.

Nada disso aparece.

E quando uma política pública não corrige incentivos, ela os reforça.

Conclusão: um sistema que pune virtude e recompensa custo

O novo modelo da CAPES cria um paradoxo difícil de justificar:

quanto mais caro você publica, mais o sistema te favorece;quanto mais eficiente você é, mais invisível se torna.

Isso não é falha técnica.É erro de desenho.

Enquanto a CAPES não alinhar avaliação científica com eficiência, abertura e sustentabilidade, continuará financiando exatamente aquilo que diz querer combater.

E, no processo, seguirá punindo quem faz a escolha correta.



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