Religião como Conflito de Interesse na Pesquisa Científica
- Jorge Guerra Pires
- há 3 minutos
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Recentemente, tive a satisfação de ter um artigo aceito em uma revista que, felizmente, se alinha com uma perspectiva que defendo: religião é, sim, um potencial conflito de interesse (COI) quando relacionada ao tema de pesquisa.
Infelizmente, como já ficou evidente em pesquisas recentes, essa ainda não é uma visão consensual entre jovens pesquisadores. Muitos ainda associam COI apenas a interesses financeiros, ignorando que convicções pessoais — religiosas, políticas ou ideológicas — podem afetar a interpretação de dados, a escolha de metodologia e até as conclusões de um estudo.
A JMIR Publications, por exemplo, é pioneira ao incluir explicitamente no seu guia de COIs que "Personal convictions (political, religious, ideological, or other) related to a paper's topic that might interfere with an unbiased publication process" devem ser declaradas. Esse é um avanço ético crucial, porque reconhece que a imparcialidade científica pode ser afetada mesmo na ausência de ganhos financeiros.
Casos práticos ilustram isso claramente. Pense em um estudo sobre a relação entre maconha e frequência à igreja. Se os autores têm convicções religiosas, mesmo que não intencionais, essas crenças podem influenciar a análise e a interpretação dos resultados. Ou ainda, no caso de um autor cristão que questiona a teoria da evolução: declarar sua convicção não invalida o estudo, mas fornece contexto essencial para que leitores e revisores compreendam possíveis vieses ideológicos.
Declarar esses COIs é, na verdade, uma forma de proteger a ciência, não os autores individualmente. Ajuda a separar o que é ciência rigorosa de interpretações que podem ter sido influenciadas por convicções pessoais. Transparência é o que garante confiança, evitando que omissões sejam interpretadas como parcialidade ou má-fé.
Em resumo: a religião pode ser tóxica para a pesquisa quando não reconhecida como possível fonte de viés. Declarar isso não é intolerância religiosa — é ética científica. Precisamos avançar para que todos os estudos sobre temas sensíveis incluam a religião como COI, permitindo que a ciência seja lida com clareza e credibilidade.
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